Trás-os- Montes , uma identidade muito própria.

No limiar da terra fria Transmontana e já com uma longa história na produção de vinhos, Valpaços é uma das três sub-regiões que constitui a região vitivinícola de Trás-os- Montes, abrangendo 31 freguesias, na sua maioria do Distrito de Vila Real a grande divisão agrícola que define o Nordeste Transmontano é a Terra fria, a norte do concelho situada acima dos 600m de altitude e de pluviosidade elevada e a Terra quente situada à cota de 350m e 400m e com um nível de pluviosidade consideravelmente mais baixo.

Tal divisão reflete o contraste climático ecológico e agro-cultural da região.

A orografia da região é bastante acidentada devido aos numerosos vales determinados pelas bacias hidrográficas do Tua, Rabaçal, Tuela e seus afluentes. As grandes barreiras protetoras das influencias marítimas são a Norte as serras da Padrela e da Coroa , as serras de Bornes e Nogueira a Leste e a Sul as linhas altas de Vilas Boas e Passos.

A nível do solo, as características mais expressivas a Norte e a Sul da região são, respectivamente, os solos de granito com uma boa drenagem e pouco férteis, e os xistentos mais profundos e férteis. Depois desta breve descrição agro-climatica, é indiscutível a diferença de vinhos em função das zonas supra-descritas. Esta diferença não se reflete numa qualidade assimétrica como é perceptível pelas boas colheitas dos últimos anos que resultam em vinhos bem generosos, interessantes e bastante aromáticos. A realidade destes factos na atualidade tem antecessores mais raros, devido muitas vezes às dificuldades inerentes à vinificação. Esta situação tem sido ultrapassada com um investimento alargado nessa área em toda a região, dando origem a adegas melhor equipadas, com sistemas de controlo de temperatura, cubas em inox e boas madeiras para estágio dos vinhos. Tal investimento e dinamismo tem vindo a transformar claramente a imagem desta região vitivinícola e dos vinhos nela produzidos.

A restruturação e reconversão da vinha no que diz respeito à escolha das castas e ao trabalho do solo tem vindo a dar frutos visíveis, exemplo disso são as Adega cooperativas de Valpaços e Rebordelo que ano após ano tem elaborado bons vinhos e bastante competitivos no mercado. A qualidade reflecte-se igualmente na produção particular nomeadamente das zonas de Sonim de Sobreiro de Cima, entre outros. Estes são exemplos daquilo que poderá ser uma das grandes apostas de desenvolvimento sustentável desta sub-região. No que diz respeito às nobres castas desta zona, são de produção significativa nas tintas, a tinta amarela (ou trincadeira na maior parte do pais), tinta carvalha, mourisca e touriga nacional.

Quanto às castas brancas, as mais expressivas são malvasia, côdega de larinho, verdelho , fernão pires e gouveio. Destas gostaria de destacar nas tintas a tinta amarela pois o solo, clima e características geográficas fazem com que aqui esta casta possa demonstrar as suas melhores qualidades, dado que em ano de boa maturação as características principais são a boa acidez, os taninos suaves e claros aromas a ameixas negras e amoras, no caso das castas brancas, realço a côdega de larinho que quando em boas condições de maturação apresenta aromas florais como louro calêndulas ou outras flores do campo, e aromas de frutos como melão pêssego ou mesmo limão, fazendo vinhos de uma complexidade digna dos apreciadores mais atentos, a acidez não é o seu forte no entanto acaba por colmata-la com uma longa persistência de boca. Falar de vinho é sem duvida andar de mão dada com muito do que é a carga histórica, social, cultural e gastronómica de toda uma região e um povo.

Não podia deixar de conjugar os exímios néctares referidos com estes belos exemplares do nosso receituário tradicional transmontano agora trabalhado sob técnicas audazes e atentas do G da pousada pelas mãos do Óscar e equipa , as escolhas recaem na caça, exlibris do ecossistema da região e que deslumbram os palatos mais exigentes daqueles que da mesa fazem uma verdadeira “honesta volúpia”. A Lebre e Perdiz tais nobres pratos reclamam por um vinho Tinto um pouco evoluído de carácter “maduro” e de um bouquet complexo, que faça uma agradável ponte de sabores entre o prato e o vinho procurando assim uma bela harmonia. Importante será referir que este género de vinhos deverá ser cuidadosamente decantado para separar o vinho dos resíduos sólidos, tal só deverá ser feito imediatamente antes de ser servido, assegurando assim a preservação do bouquet e das suas nuances.

A temperatura é outro ponto fundamental: Para retirarmos todas as potencialidades do vinho não devemos aumentar muito a temperatura pois desta forma sentir-se- ia muito o álcool. Por outro lado se baixar-mos demasiado a temperatura fecharíamos muito o vinho não revelando as suas características. Desta forma a temperatura recomendável é entre 16 graus e 18 graus, devendo ser servido num copo tipo Bordéus ou Cabernet.

Saudações Gastronómicas

António Gonçalves

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